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Voltar Publicado em: segunda-feira, 13 de dezembro de 2021, 4h41

Ano de 2021 marcado pelo crescimento expressivo do consumo per capita e margens negativas para os produtores

Confira o balanço do ano de 2021 para a suinocultura brasileira, e as projeções para 2022!

Mesmo sem todos os dados consolidados já é possível realizar um balanço do ano na suinocultura e projetar cenários para 2022. No mercado externo, as exportações de carne suína in natura devem fechar 2021 com crescimento superior a 11% em relação ao ano passado, totalizando pouco mais de 1 milhão de toneladas. Porém, no mês de novembro houve um recuo significativo dos embarques (tabela 1), chamando a atenção a queda da China, o maior importador de carne suína, que comprou do Brasil somente 20,3 mil toneladas no último mês, o pior resultado mensal desde abril de 2019 para este destino.

Tabela 1. Volumes exportados totais e para a China de carne suína brasileira in natura em 2019 e 2020 e de janeiro a novembro de 2021 (em toneladas).
 Fonte MDIC.

Esta queda nos embarques para a China já tinha sido observada em outubro e pode ser atribuída ao aumento de oferta de carne suína no país, determinando queda no preço no mercado doméstico chinês que acabou refletindo também na redução do valor em dólar da carne brasileira exportada. A tabela 2 demonstra claramente isto, com o preço médio da carne suína in natura exportada (média geral e para China), em dólar atingindo o pico em julho de 2021 e o menor valor em novembro. A diferença (spread) do preço em reais em relação ao mercado doméstico de carcaça (São Paulo) também caiu para baixo de 20%, destacando que mais de 85% das exportações de carne suína do Brasil são na forma de cortes, determinando que, no momento o mercado externo de carne suína está pouco atrativo quando comparado com o preço no mercado doméstico.

Tabela 2. Preço em dólar da carne suína brasileira in natura exportada x mercado interno de carcaça especial em São Paulo, de janeiro a novembro de 2021
Fonte: CEPEA, MDIC

Diante desta queda nas exportações de carne suína pra a China nos últimos meses é natural que haja preocupação quanto às perspectivas de embarques em 2022, porém, entendendo as causas desta redução que foram relacionadas à liquidação de plantéis decorrente não somente da persistência da Peste Suína Africana (PSA) na China, mas também porque os suinocultores chineses estavam operando no vermelho. Espera-se que em 2022, especialmente no segundo semestre, esta redução dos planteis resulte em queda na oferta, oportunizando um novo aumento da exportação de carne suína para a China. Mas e o primeiro semestre de 2022? Os últimos anos demonstraram que os primeiros meses do ano são de redução do ritmo de exportações para a China, entretanto, há um fato novo que é a reabertura do mercado russo que anunciou uma cota (tarifa zero) de 100 mil toneladas para o Brasil exportar no primeiro semestre do ano que vem. É um alento, visto que pode servir como uma espécie de “backup” para a redução das compras chinesas no início do ano.

O momento não é dos melhores, principalmente no mercado interno, quando se observa claramente que a oferta ultrapassa a demanda e os preços pagos ao produtor não reagem nem mesmo nas últimas semanas que antecedem ao Natal. A tão esperada subida do preço do suíno no final de ano não veio (gráfico 1) e o suinocultor deve fechar 2021 amargando margens financeiras negativas (tabela 3).

Gráfico 1. Preço (R$) do kg carcaça suína especial em São Paulo nos últimos 2 anos.
Média de dezembro/21 até dia 10/12.
Fonte: CEPEA

Tabela 3. Custos totais (ciclo completo), preço e lucro/prejuízo estimados nos três estados do Sul (R$/kg suíno vivo vendido), de janeiro a novembro de 2021.
Fonte: Embrapa (custos) e Cepea (preço).

Uma das causas desta “não decolagem” dos preços no final do ano relaciona-se justamente ao aumento da oferta. O IBGE divulgo no último dia 9, os dados consolidados de abate de animais no terceiro trimestre de 2021 (tabela 4).


Tabela 4. Abate de bovinos, aves e suínos no terceiro trimestre de 2021, comparado com o mesmo período do ano passado e com o segundo semestre deste ano. Projeção para o ano de 2021 baseada na média acumulada de janeiro a setembro.
Fonte: IBGE

Os dados do IBGE mostram que a proteína suína ainda é a que mais cresce no Brasil em produção. No terceiro trimestre de 2021 em toneladas de carcaças cresceram 9,01% em relação ao mesmo período do ano passado, e 4,68% em relação ao segundo trimestre de 2021; em cabeças este crescimento foi de 7,82% e 5,25%, respectivamente. Certamente ultrapassaremos a marca de 4,8 milhões de toneladas no fechamento do ano de 2021, algo próximo a 8% em relação a 2020, que já havia mostrado um crescimento extraordinário de 8.4% sobre 2019. Um aumento de mais de 40% da produção num período de 6 anos (de 2015 a 2021), sendo quase metade deste crescimento nos últimos dois anos. É um dos maiores crescimentos percentuais do planeta entre os grandes produtores mundiais de suínos. Mesmo com o crescimento expressivo das exportações nos últimos anos, o mercado doméstico foi quem absorveu esta explosão de oferta. Consequentemente a boa notícia foi o aumento do consumo per capita de carne suína (gráfico 2) que deve chegar muito próximo da marca histórica de 18 kg per capita ano em 2021, o que representa um acréscimo ao redor de um quilograma por habitante em relação ao ano passado.


Gráfico 2. Estimativa trimestral de consumo per capita ano (kg/habitante/ano) projetada (do terceiro trimestre de 2018 ao terceiro trimestre de 2021), baseada na disponibilidade interna de carne suína (produção menos exportação de carne in natura).
Fonte: IBGE e MDIC.

Conclui-se que o aumento de oferta é absorvido pelo mercado, porém o problema é o preço pago por essa alta disponibilidade interna em um país em evidente crise econômica, com inflação alta, taxa selic e desemprego subindo, resultando em queda do poder aquisitivo. Não à toa em alguns momentos o preço da carcaça suína no atacado se aproximou muito do preço do frango ao longo do ano.

Por se tratar de uma cadeia longa e resiliente, a suinocultura deve crescer algo ao redor de 4% ao longo de 2022 em relação a este ano, mesmo com margens negativas em 2021. Esta é a projeção da ABPA. Portanto, a menos que a economia brasileira retome de forma consistente o crescimento o ano de 2022 ainda será de desajuste entre oferta e procura.

Custo recorde em 2021 deve recuar em 2022

Sem dúvida o maior desafio do produtor ao longo deste ano foi o custo de produção. A quebra histórica da safra de milho, agravada por um mercado altamente especulativo, manteve o principal insumo da suinocultura em alta ao longo de todo o ano (gráfico 3), atingindo o maior preço nominal da história em maio/21, quando o valor da saca de 60kg ultrapassou os 100 reais em várias praças. Após a colheita da segunda safra houve um recuo nos valores do grão, mas ainda em patamares que não permitiram margens positivas diante do baixo preço do suíno vivo (tabela 3).


Gráfico 3. Preço (R$) da saca de 60kg de milho em Campinas (SP) nos últimos 2 anos.
Média de dezembro/21 até dia 10/12.
Fonte: CEPEA

Para 2022 é esperada uma supersafra de grãos, com recorde de produção de soja (142 milhões de toneladas) e de milho (117 milhões de toneladas), segundo a Conab. O último levantamento de safra publicado em 09/12/21, indica um estoque de passagem de 8,8 milhões de toneladas de milho para 31 de janeiro (tabela 5), maior do que o do levantamento anterior, em função da redução das exportações do cereal.

Tabela 5. Balanço de oferta e demanda de MILHO no Brasil. Dados da safra 2021/22 atualizados em 09/12/21, sendo estoque final previsto para 31/01.
Fonte: Conab

O mesmo levantamento da Conab estima um aumento da área plantada de milho na primeira safra na ordem de 3,7% em relação ao ano passado, com projeção de colher pouco mais de 29 milhões de toneladas, contra 24,7 deste ano. Esta projeção poderá ser afetada para baixo em função da estiagem persistente na região Sul do país que é a que mais contribui para a oferta da safra verão. O déficit hídrico tem preocupado especialmente no estado do Rio Grande do Sul. Por outro lado, a região centro-oeste do Brasil conseguiu plantar a primeira safra (soja) em prazo que possibilitará o plantio da segunda safra (milho) dentro da janela climática ideal, com expectativa de colher volumes recordes em meados de 2022. Confirmadas as projeções da Conab, certamente teremos recuo nos preços destes insumos no ano que vem, mas é preciso acompanhar não somente o comportamento do clima, como também outros fatores que podem interferir na produtividade, como é o caso da alta de preços e a escassez de fertilizantes que podem determinar a redução da produtividade em algumas regiões. É importante destacar que a pressão inflacionária, embora seja maior no Brasil, ocorre em todo o mundo e outros insumos importantes que dependem de importação (medicamentos, vitaminas, aminoácidos) devem continuar subindo de preço, assim como a mão de obra com os reajustes salariais que normalmente ocorrem no início do ano.

Mensagem aos produtores

Para o presidente da ABCS, Marcelo Lopes, embora não tenha trazido lucro aos produtores, em função do alto custo e do preço pago relativamente baixo pelo suíno vivo, o ano de 2021 foi marcado pelo aumento significativo do consumo doméstico, com a carne suína conquistando cada vez mais espaço nas gôndolas dos supermercados e na mesa do consumidor brasileiro. O setor também mostrou força e organização com o início do enfrentamento da Peste Suína Clássica na zona não livre com a implantação do projeto piloto de vacinação no estado de Alagoas, e na mobilização para reforçar medidas de biosseguridade para a manutenção do país livre de PSA. “Para o futuro é preciso que os produtores destinem as margens positivas, prioritariamente, não para o aumento de planteis, mas sim para melhorias no sistema de produção e compra estratégica de insumos, buscando maior sustentabilidade e mantendo oferta de suínos ajustada a demanda interna e externa, permitindo margens positivas na atividade. Vamos seguir em 2022 produzindo com responsabilidade, segurança e sustentabilidade, levando saúde para as mesas das famílias brasileiras.”