Notícias
Filiadas em Destaque
Voltar Publicado em: quarta-feira, 22 de julho de 2026, 4h08
Mais produção, mais exportação e menos preço: o que explica a crise do primeiro semestre de 2026 na suinocultura
Os indicadores econômicos contam uma história diferente daquela esperada pelo setor no início do ano. Esta edição reúne os dados que ajudam a entender por que recordes de produção e exportação terminaram resultando em um dos semestres mais desafiadores para o produtor

O primeiro semestre de 2026 terminou com um cenário que surpreendeu boa parte da cadeia produtiva. Apesar do crescimento das exportações brasileiras de carne suína e da competitividade do produto no mercado internacional, a expansão da produção foi suficiente para elevar significativamente a disponibilidade interna, pressionando os preços pagos ao produtor para níveis abaixo do custo de produção em diversas regiões do país.
Os dados analisados pela ABCS mostram que a combinação entre aumento do plantel, maior produtividade e crescimento contínuo dos abates criou uma oferta superior ao ritmo de absorção do mercado doméstico, alterando rapidamente o equilíbrio observado no início de 2025.
Houve uma reversão das expectativas já nos primeiros meses, quando o preço pago ao produtor e o preço da carcaça iniciaram um ciclo de queda sem precedentes na história recente da suinocultura, culminando com preço do quilograma de suíno vivo abaixo de 5 reais em algumas praças (gráficos 1 e 2).

Fonte: CEPEA.

Fonte: CEPEA.
Nem o novo recorde de exportações de carne suína in natura, que fechou o semestre com crescimento de 8,5% em relação ao mesmo período do ano passado (tabela 1), foi suficiente para conter a queda vertiginosa dos preços do suíno.

Elaborado por Iuri P. Machado, com dados da Secex.
Embora os dados oficiais de abate estejam consolidados apenas até o primeiro trimestre de 2026, eles já permitem identificar uma tendência clara de crescimento da produção e da disponibilidade de carne suína no mercado interno. A Tabela 2 mostra que, entre março de 2025 e março de 2026, o volume de abates cresceu durante 13 meses consecutivos na comparação com o mesmo período do ano anterior, resultando em um acréscimo de 379 mil toneladas de carcaças (+6,51%). Em número de animais, isso representa cerca de 3,24 milhões de suínos abatidos a mais (+5,13%), volume equivalente à incorporação de pouco mais de 100 mil matrizes ao plantel tecnificado nacional, estimado atualmente em cerca de 2,2 milhões de fêmeas.
No mesmo intervalo, as exportações brasileiras de carne suína in natura também avançaram, com crescimento de 164,3 mil toneladas (+12,61%). Apesar do desempenho histórico dos embarques, esse aumento não foi suficiente para absorver toda a produção adicional. Como consequência, a disponibilidade interna cresceu aproximadamente 215 mil toneladas (+4,76%) em apenas 13 meses, volume equivalente a um incremento superior a 900 gramas no consumo per capita anual por habitante.
Esse desequilíbrio entre o ritmo de crescimento da produção e a capacidade de absorção dos mercados interno e externo ajuda a explicar a forte pressão sobre os preços observada ao longo do primeiro semestre de 2026, consolidando um cenário de sobreoferta como principal fator da atual crise de rentabilidade do setor.

Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do IBGE e da Secex.
Dados preliminares do SIF, ainda não oficiais, indicam uma desaceleração no crescimento do abate nos últimos 2 meses, quando comparado com o mesmo período do ano passado, tendência observada também nos embarques. Ou seja, é muito provável que o segundo semestre seja marcado por uma certa estabilização na produção e disponibilidade interna, mas ainda em patamar bem mais alto do que no início de 2025, quando o ajuste entre oferta e demanda determinou preços bastante atrativos para o setor.
O que chama atenção nas exportações de carne suína in natura ao longo deste ano de 2026 é a paridade em relação ao mercado doméstico. Conforme a tabela 3, adiante, quando se compara o preço da carcaça especial em São Paulo (SP), com o valor exportado em reais, percebe-se um spread (diferença percentual) favorável à exportação bastante elevado este ano, chegando a quase 50% em junho/26, com média de 32% no acumulado do ano, sendo que no ano passado fechou em pouco mais de 12%. Cabe lembrar que nem quando a exportação brasileira deu um salto, entre os anos 2019 e 2021, esta paridade de preços ultrapassou os 30% na média anual. Ou seja, com a carcaça suína tão barata no mercado doméstico, a exportação está bastante atrativa para as indústrias que conseguem acessar o mercado externo.

Elaborado por Iuri P. Machado, com dados da Secex e CEPEA.
Com a segunda safra de milho se encaminhando para próximo de 50% da área colhida, confirma-se um grande volume do cereal para abastecer o mercado doméstico e garantir a exportação projetada. Apesar da boa safra brasileira, depois de alguns meses de cotações em queda, o milho apresentou viés de alta nas últimas semanas (gráfico 3), em parte devido à redução da projeção do USDA em quase 9% para a safra estadunidense que será colhida a partir de setembro.

Fonte: CEPEA
Levantamento recente da EMBRAPA apontou relativa estabilidade nos custos no mês de junho nos 3 estados do Sul, mas com preço do suíno abaixo de cinco reais (CEPEA), o prejuízo aumentou no último mês, determinando um semestre praticamente sem margens financeiras na atividade (tabela 4).

Elaborado por Iuri P. Machado com dados: Embrapa (custos), Cepea (preço do suíno)
Mercado entra no segundo semestre em busca de reequilíbrio
Os indicadores preliminares sugerem uma desaceleração no ritmo de crescimento dos abates, movimento que pode contribuir para uma gradual redução da pressão sobre a oferta ao longo do segundo semestre. Ainda assim, a disponibilidade interna permanece superior à observada no início de 2025, o que mantém o mercado em um cenário de cautela.
Na avaliação do presidente da ABCS, Marcelo Lopes, o comportamento atual dos preços reflete principalmente um desequilíbrio entre oferta e demanda.
“Pela dimensão do crescimento do abate observado desde o ano passado, isso se deve ao aumento do plantel de matrizes, acompanhado de ganhos de produtividade que não foram previstos pelo setor. Diferentemente de crises recentes, esta é uma crise de oferta, e não de custos”, afirma.
Segundo ele, embora a exportação permaneça altamente atrativa e a carne suína mantenha competitividade frente às demais proteínas, a recuperação dos preços deve ocorrer de forma gradual, acompanhando o aumento sazonal da demanda esperado para os últimos meses do ano.